Yobotarate’s Weblog


Crônica da Loucura
Abril 10, 2008, 5:38 pm
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 Recebi esse texto do Luis Fernando Veríssimo (aí embaixo) por email – Ri demás!

Lembrei da minha futura atual terapeuta…….

(e amiga)

 

CRÔNICA DA LOUCURA
 (Luis Fernando Veríssimo)
>
> O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos.
> Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito
> e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o
> psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de
> seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era
> louco, ficou.
> Durante quarenta anos, passei longe deles.
> Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras
> acumuladas. Confesso, como louco confesso,
> que estou adorando estar louco semanal.
> O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando
> os meus colegas loucos na sala de espera.
> Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas.
> Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos,
> pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.
> Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura.
> E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes,
> a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos,
> corintianos ou palmeirenses.
> Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo.
> E a sala de espera de um ‘consultório médico’, como diz a atendente
> absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho
> como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu.
> Senão, vejamos:
> Na última quarta-feira, estávamos:
> 1. Eu
> 2. Um crioulinho muito bem vestido,
> 3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
> 4. Uma velha gorda.
> Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema
> de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio
> que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali,
> tão cabisbaixos e ensimesmados.
> (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista
> como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo
> até aquela poltrona de vime.
> Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro
> e não conseguiu entrar como sócio do ‘Harmonia do Samba’?
> Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social,
> com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com
> pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala.
> Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro.
> Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo.
> Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso.
> Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas
> para dentro da mala assassina.
> (3 )E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos?
> Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei
> que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa.
> E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram?
> Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver.
> Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma
> hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas
> quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho
> da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa.
> Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas.
> Homossexual? Acho que não.
> Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
> 4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha.
> Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela.
> Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria?
> Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não!
> Tirou um terço da bolsa e começou a rezar.
> Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava.
> Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada.
> O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem
> a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos.
> Tinha cara também de quem mentia para o analista.
> Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
> Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.
> Conto para ele a minha ‘viagem’ na sala de espera.
> Ele ri, ….. ri muito, o meu psicanalista, e diz:
> – O Ditinho é o nosso office-boy.
> – O de terno preto é representante de um laboratório multinacional
> de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês
> com as novidades.
> – E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
> – E você, não vai ter alta tão cedo…’